04 agosto 2008

Satisfação



Nos últimos tempos tenho me tornado uma pessoa amarga. Uma amargura que é fruto de uma constante insatisfação. Vivo insatisfeita com minhas não-realizações profissionais, com meu corpo, minha casa, com a política, com a cidade em que vivo... Sei que esse não é um sentimento exclusivo meu, afinal o mundo moderno com todas as suas vantagens e facilidades tem produzido um verdadeiro exército de insatisfeitos.

Além do mais em alguns momentos da vida necessitamos parar para definir metas para o futuro e, para isso se faz necessário um inventário de tudo o que fizemos até então, e o pior, do que deixamos de fazer. Evidentemente que isso gera crise, desconfortos de todo tipo, mas querer melhorar é sempre bom, por isso é bem vinda a insatisfação. O problema é quando ela vira obsessão e esse melhor não chega nunca!

É estressante pensar que nunca alcançamos o ponto ideal, afinal o colocamos cada vez mais alto.

E como a insatisfação cansa! Nos deixa esgotados!

Hoje estou aqui, com o pé engessado, não posso me levantar, nem fazer as coisas que normalmente faria. Minha filha está de férias e neste momento passeia pela rua de bicicleta. As plantas lá fora ficam como que me pedindo para que eu as toque, remexa a terra, tire as folhas secas. Tenho vontades...inúmeras: caminhar, arrumar os armários, cozinhar..., prazeres duvidosos para alguns, mas excelentes para mim!

No meio de tanto o que fazer e a condição limitada em que me encontro me pego num estado que há muito tempo não sentia, me pego satisfeita!

Sabe aquele sentimento de que tudo está bom? Aquele momento de rara lucidez no qual percebemos que tudo o que é importante, de fato, nós possuímos?

A cama quentinha, os travesseiros nas posições certas, a janela aberta, o vento solitário e amigo de Agosto, os cabelos levemente despenteados e, o melhor, o corpo relaxado, livre de qualquer tensão.

Me lembrei de quando era criança e ia pescar com o meu pai, tardes monótonas de domingo em que o ar, o sol, a água e até os peixes pareciam satisfeitos, contentes por existirem!

Nestes momentos é como se entrássemos na essência das coisas. E os demônios da pressa e da falta de tempo ficam sem permissão de nos visitar.

Obviamente que não podemos viver assim neste estado de eterna contemplação, do contrário ainda estaríamos vivendo em cavernas. Contudo, às vezes, é bom pararmos. Se não por vontade própria, por força maior, como no meu caso. Deveríamos nos permitir mais esse luxo que é o ócio, que na medida certa nos abastece de paz e plenitude.

E como há muito tempo não experimentava me senti banhada por uma chuva de contentamento, renovada, refeita. Como a um bebê depois de um banho quentinho e amamentado. Nossa, que coisa boa!