
Ele chegou assim como quem não espera mais nada da vida. O cansaço do corpo e da alma eram totais. O sinal da desesperança se alastrava por todo seu corpo, seu andar era arrastado, as costas curvas. Segurei no seu queixo, levantando o seu rosto: olhos de naufrago! Os cabelos desgrenhados, pareciam que tinham se tornado brancos de uma só vez. As asas mais pareciam de um frango de granja abatido. Nem de longe lembrava o esplendoroso anjo que um dia pousou no meu ipê.
Acompanhei, segurando-o pela cintura, para dentro da nossa casa. Casa tosca, como a mesa, as cadeiras, a cama, a nossa vida!
Chega um tempo em que as palavras tornam-se inúteis. Conhece-se cada vinco do rosto, cada ruga da mão.
Peguei a chaleira sobre o fogo e despejei na bacia. Dobrei a barra de suas calças puídas e como se tocasse o corpo frágil de um bebe, conduzi seus pés até a água morna. Fui ao quintal, colhi um ramo de alecrim, dizem que revigora as forças. Ajoelhei-me junto a bacia e macerei suas folhas delicadas sobre sua pele fina.
O tempo passou nessa quietude, a chuva parou, a escuridão tornou-se densa.
Será que ele tem sonhos? Será que eu tenho?
Observo as pedras pela janela, vultos escuros, sombrios, cobertas de musgos, cheirando a mar. Imóveis e tristes, belas e serenas, como só a velhice sabe ser.